Empregados - 19/10/2011 A escalada das domésticas

A escalada das domésticas

As oportunidades de estudo, que permitem a migração para outras profissões, e a recusa em desempenhar o velho papel submisso provocam a escassez de empregadas e babás e impõem novos hábitos às famílias brasileiras. GABLIELA CARELLI

A transformação em curso da casa brasileira pode ser percebida no sotaque. No passado, a melodia das conversas na cozinha refletia a procedência regional da empregada doméstica, em geral originária de um grotão empobrecido. Hoje, a fala pode ser temperada pela modulação de uma língua estrangeira. Calcula-se que 6.000 imigrantes, a maioria vinda de países vizinhos, estejam trabalhando de doméstica ou babá no Brasil. É uma gota d’água no oceano – apenas 2% do total de estrangeiros que, estima-se, trabalham sem autorização no país. Mas é suficientemente expressivo para sinalizar uma considerável mudança social: pela primeira vez, desde os tempos coloniais, a demanda por empregados domésticos no Brasil supera a oferta. O número de trabalhadores domésticos tem caído de modo consistente nos últimos quatro anos. Nesse período, a população ocupada com serviços domésticos nas seis maiores regiões metropolitanas do país diminuiu 19%. De acordo com os dados da Organização Internacional do Trabalho, 1,1 milhão de babás e empregadas sumiram dos lares brasileiros. “Nós estamos assistindo ao início de um processo de grande redução da categoria profissional das domésticas, no mesmo molde ocorrido nos países desenvolvidos”, resume o economista José Pastores, da Universidade de São Paulo, especialista em relações do trabalho.
 

As mulheres com filhos pequenos e que trabalham fora não precisam entrar em pânico – por enquanto. As domésticas não vão desaparecer totalmente de um dia para o outro. Só estão ficando mais escassas e bem mais caras. Quase 6 milhões de brasileiras – sete em cada 100 trabalhadores compõem a força de trabalho – ganham a vida no ramo das panelas, esfregões e bebês chorões. O porcentual é alto se comparado com o de países desenvolvidos. Na França, o serviço doméstico emprega 2,5% dos trabalhadores. No Canadá, apenas, 0,4%. O que já mudou bastante, por aqui, é o tipo de serviço que pode esperar desse profissional. “O fim da empregada do jeito a que estávamos acostumados, uma pessoa que fazia todos os serviços da casa e dormia no serviço, é um caminho sem volta”, diz a economista Hildete Pereira de Melo, que tem o trabalho doméstico como principal objeto de estudo. “Atualmente, 30% de todas as domésticas no Brasil são diaristas. Nas capitais, o porcentual atinge 70%. O Brasil em breve será como a Inglaterra ou a Alemanha, onde não há quartos de empregada e nem as imigrantes dormem na casa dos patrões”. O sumiço das domésticas é sintomático de países onde a expansão da economia e do sistema educacional permitiu à camada mais pobre da população aspirar a profissões típicas de classe média.
Até pouco tempo, cozinhar, passar e cuidar da casa e dos filhos dos outros era uma das poucas opções disponíveis para uma mulher pobre e com baixa escolaridade. “A casa de família sempre foi o primeiro emprego das chamadas “mocinhas”, meninas que deixavam o interior para ganhar a vida na cidade grande. A mãe, a avó e a bisavó dessas meninas faziam o mesmo percurso quando jovens”, diz Hildete Pereira. Hoje, as filhas das empregadas domésticas já não estão predestinadas a seguir os passos da mãe. Elas não querem, na verdade. Uma pesquisa do instituto Data Popular com domésticas em 45 e 65 anos mostra que, para suas filhas, jovens com idade entre 18 e 25 anos, o ingresso no mercado de trabalho já não se dá pela entrada de serviço, mas através de empregos de vendedora, auxiliar administrativa, caixa de supermercado e recepcionista. “Mesmo as jovens que começam a trabalhar como empregadas largam essa função assim que surge a primeira oportunidade”, diz Renato Meirelles, do Data Popular.

 

A educação é o eixo da mudança de rumo. O brasileiro adulto tem em média 7,2 anos de estudo – um salto extraordinário em relação do 1,8 ano de 1960. Entre a população economicamente ativa com mais de 18 anos, metade dos trabalhadores tem mais de onze anos de estudo. Dez anos atrás, esse porcentual ficava abaixo dos 30%. Com mais anos de estudo, as jovens que no passado teriam ido naturalmente trabalhar na casa alheia podem agora escolher entre profissões sem o estigma social que cerca o trabalho doméstico. “Trocar de carreira é a oportunidade que essas mulheres têm de realizar o seu sonho de usar o elevador social e entrar pela porta da frente”, diz a antropóloga carioca Carla Barros, da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio, autora de uma tese de doutorado sobre domésticas brasileiras. Em seu estudo, Carla esmiuçou a relação entre donas de casa da Zona Sul carioca e suas empregadas, moradoras de favelas e do subúrbio. Depois de acompanhar o dia a dia das empregadas por quase um ano, Carla concluiu que a maioria tem vergonha da profissão. Muitas até tentam esconder dos vizinhos a natureza do seu ganha-pão. É comum uma empregada rejeitar o registro do emprego em carteira para não ter a palavra doméstica cunhada no documento. “Entrevistei uma empregada que se recusava a usar uniforme”, conta a antropóloga. “O surpreendente é o motivo: ela tinha medo de, em caso de uma emergência, ser identificada como empregada e, por causa disso não ser atendida pelo médico no pronto-socorro.”
 

O casal Franciele e Paulo Sérgio Zavarezzi trocou Cascavel, no Paraná, pelo trabalho doméstico em São Paulo, nos anos 90. A exemplo de uma geração de colegas, eles estão mudando de profissão – e também de classe social. Filha de um padeiro e de uma funcionária pública, Franciele, de 29 anos, já tinha o ensino médio completo quando se mudou pra São Paulo para trabalhar como babá. Durante seis anos, ela ganhou quatro salários mínimos mensais para dormir no emprego, com direito a um dia de folga a cada quinze. Com as economias feitas nesse período, pagou a faculdade de administração de empresas, concluída no ano passado. Hoje é gerente de vendas de uma multinacional e recebe 4.500 reais mensais. Seu marido, Paulo, de 37 anos, copeiro numa residência, seguiu o mesmo caminho. Está no último ano da faculdade de administração e atua informalmente no mercado financeiro. Seu salário é de 2.600 reais. Todos os meses, os investimentos feitos com suas economias na bolsa rendem-lhe o dobro disso. A demanda por empregadas domésticas, principalmente no Sudeste, era alimentada pela migração interna, em especial a nordestina. Não é mais assim. Região brasileira atualmente com maior crescimento econômico, o Nordeste deixou de ser um exportador de empregadas e babás. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), 340 000 nordestinos migraram para o Sudeste entre 2001 e 2009 – um número bem menor do que os 507 000 registrados nos cinco anos anteriores. Diz Tadeu Oliveira, demógrafo do IBGE: “ O Brasil caminha para um cenário no qual não haverá mais pólos de atração populacional, mas sim rotatividade. O saldo entre as pessoas que saem de um lugar e as que chegam será próximo de zero. Já vemos isso em dezessete dos 27 estados”. O resultado mais notável desse processo foi o desmonte de um sistema próximo à servidão doméstica, que prevaleceu enquanto o Brasil foi um país rural e o campo fornecia um inesgotável fluxo de mão de obra barata. Uma pesquisa do Data Popular revela que o valor da remuneração de uma empregada doméstica no Brasil cresceu 43,5% desde 2002, quase o dobro em relação à renda da população em geral. No Rio e em São Paulo, é difícil encontrar domésticas com salário abaixo de 1 000 reais por mês. Achar uma empregada disposta a dormir no emprego já parece ter, para as patroas, grau de dificuldade similar ao de acertar na loteria. Relatos de exigências extravagantes, como a daquela profissional que só aceitaria o emprego se o patrão se comprometesse a levá-las nas viagens de férias no exterior, fazem parte do folclore das agências de emprego. “Mesmo as empregadas sem boa qualificação profissional recebem ofertas de emprego à todo momento nos clubes, nas pracinhas e na porta da escola das crianças. Por isso, elas estão muito exigentes. Um pedido a mais da patroa basta para que elas abandonem o emprego de uma hora para a outra”, diz Janaína Pilon, dona da agência Alô babá, em São Paulo. Foi numa sexta-feira, às 7 da manhã, que a professora universitária Sandra Malavolta, carioca de 37 anos e mãe de duas meninas, recebeu a ligação de sua empregada. “Ela disse que não voltaria porque o santo dela não tinha batido com o meu. Tive de faltar no trabalho até reorganizar a minha casa”, conta. As domésticas sempre estiveram presentes na casa dos brasileiros, mas foi a partir da década de 70, com a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho, que ter uma empregada se tornou não apenas uma opção, mas uma necessidade. Na ocasião, o emprego feminino cresceu 92% e o serviço doméstico remunerado, 43%. “As classes média e alta das principais cidades organizaram sua vida em torno dessas trabalhadoras”, diz o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas. “Agora, as famílias terão de aprender a viver sem empregada ou pagar mais caro por esse serviço.” A ascensão social das empregadas domésticas é uma espécie de revolução doméstica, que impõe novos hábitos aos lares brasileiros.
 

fonte: CARLOS GIFFONI - REVISTA VEJA